- Prazer, meu nome é Oscar.
Longe de ser a dona da verdade, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos da América, indubitavelmente, entrega um dos prêmios de maior prestígio da sétima arte. Foi-se a época em que gostava de acompanhar a premiação em tempo real, lutando contra a tradução simultânea que tira toda a graça da parada, mas ainda gosto de checar os indicados e, se possível, assistir a todos os filmes referendados e eleger os meus próprios "goes to", só para elogiar o júri ou condená-los depois (coisa de brasileiro, sabe como é... rs).
E uma das categorias mais interessantes, senão a mais, é a de Melhor Curta-metragem de animação. Adoro desenhos animados e animações de maneira geral, independente da técnica utilizada na produção da mesma, e com o advento de tecnologia de ponta em computação gráfica na produção de verdadeiras obras-primas visuais (tenha em vista Avatar, com um péssimo enredo, mas um show de renderização), ficou mais fácil contar boas histórias, ao mesmo tempo em que é possível se brincar com luzes, sombras, texturas, cores, movimentos e expressões faciais de maneiras criativas e enriquecedoras à trama, fazendo com que muitos filmes de animação superem filmes com atores reais - e nesse ponto ignoro o fato de que o que separa o real do virtual nada mais é do que uma convenção social, visto que sinapses e processos químicos não distinguem um do outro. As pessoas o fazem.
Dentre os indicados para tal categoria na edição 2010 do Oscar, que ocorrerá dia 07 de março desse ano, um dia antes do Dia Internacional da Mulher e do aniversário da Hebe e deste que vos escreve, o meu favoritado é o curta espanhol La Dama y La Muerte, com roteiro e direção de Javier Recio García, que inclusive levou o prêmio correspondente no XXIV Premios Anuales de la Academia. O enredo, em si, não apresenta grandes surpresas nem reflexões, mas brinca com o fato da morte ser algo inevitável e, inclusive, desejoso, se certas crenças pessoais forem levadas em conta. House, por exemplo, não estaria fazendo um favor à senhora representada no filme, caso resolvesse intervir no caso.
Segue o dito cujo:
La Dama y La Muerte consegue ser muito melhor que Granny O'Grimm's Sleeping Beauty, que possui uma trama ancorada no uso de falas e sarcasmo em inglês e que com isso é muito menos universal do que o primeiro, que se utiliza apenas de alguns sons e grunhidos para caracterizar a personalidade de cada personagem. French Roast, por sua vez, possui uma mensagem muito mais simples e aplicável ao mundo real (ou não...), mas tem menos ritmo, ficando um pouco enfadonho por vezes. Já Logorama é sofrível, apesar de bonitinho, sendo mais uma brincadeira pop do que um curta-metragem, enquanto que A Matter of Loaf and Death não passa de uma reciclagem de personagens antigos, originalmente de um longa-metragem que nem é tão bom assim.
Além disso, La Dama y La Muerte brinca com um tema que muito me fascina: a personificação da morte. Não sei onde exatamente isso surgiu no no folclore e na arte (Egito Antigo, para variar?), mas me intriga o fato de que muitos artistas realmente tentam atribuir sentimentos humanos à Inexcapável; acredito que esse seja o antropomorfismo mais recorrente nas artes. Uma das personificações da morte que mais me cativou, tanto pela história em que ela foi inserida quanto pela época em que a conheci, foi a morte segundo Neil Gaiman, na série de quadrinhos Sandman, publicada pela Vertigo entre 89 e 96, em que a mesma tornou-se uma bela garota com fortes traços góticos e muito senso de humor. Ironicamente, segundo Gaiman, a Morte é a mais centrada e flexível dentre todos os seus irmãos, Os Eternos, numa crítica que, ao meu ver, é muito bem pensada: os humanos temem irracionalmente aquela que parece ser a mais justa e menos sacana dentre todas as suas possíveis "bençãos e maldições".
Os Eternos (do centro, no alto, no sentido horário): Sonho, Destruição,
Desejo, Delírio, Desespero, Morte e Destino. Família simpática, não?
OBS: notem que, em inglês, há a brincadeira de que todos os nomes dos personagens começam com a letra "D".
Desejo, Delírio, Desespero, Morte e Destino. Família simpática, não?
OBS: notem que, em inglês, há a brincadeira de que todos os nomes dos personagens começam com a letra "D".
Toda a inspiração para esta postagem veio do fato de que iniciei a leitura de A menina que roubava livros, de Markus Zusak, livro que conta com uma premissa simples, mas interessante: a própria morte narra a vida de uma garota durante seus casuais encontros, na Alemanha da Segunda Guerra Mundial . Não terminei de ler o livro, mas a narrativa é muito bem feita. Apesar de não simpatizar muito com uma Morte que se assombra com os feitos humanos e que se sinta curiosa em relação à alguma pessoa em particular, este livro é uma ótima representação dramatizada sobre como as motivações de alguém para seguir com a vida, muitas vezes, são capazes até de salvá-la da morte, mesmo que não haja tal intenção.
Ainda assim, prefiro "acreditar" que a morte é marcada somente pelo término de processos bioquímicos dentro do metabolismo de organismos ditos "vivos", seja por defeitos de fabricação, excessos dos mais variados tipos, presença de espécies reativas de oxigênio e nitrogênio intracelulares e por aí vai. Uma hora acabou e acabou e pronto. A poesia e a beleza na morte existem somente porque estamos todos irremediavelmente "destinados" a encontrá-la, não importando quais motivos o tenham levado ao finalmente, seja você uma senhora anônima na visão de um cineasta espanhol ou um filósofo atemporal segundo um pintor francês neoclássico, que provavelmente não compartilhavam das mesmas crenças no sobrenatural.
Além disso, tivesse a morte uma consciência humanizada e com tanto poder em mãos, ela seria insuportavelmente cheia de si.




4 comentários:
Gostei do post! Gostei do vídeo do oscar tb!
Postei no meu facebook teu post. Não sei quem acessa aquilo, mas tá lá.
Curti muito o curta!
Sobre as representações antropomórficas e/ou zoomórficas da morte, há trechos bem interessantes em As Estruturas Antropológicas do Imaginário, de Gilbert Durand (recomendo muito esse livro para todo mundo).
Suspeito que a origem dessa representação é ancestral, muito mais antiga do que os egípcios, pois dar forma humana à natureza faz parte da natureza humana (uau!).
A Morte em Sandman é cativante mesmo, talvez porque seja também ao mesmo tempo a vida, como disse Destruição a Sonho certa vez. Esse aspecto dual e cíclico da personagem fica bem claro na história Morte: O Preço da Vida. As pessoas gostam muito da Morte e a tratam bem, sem saber quem ela é. Talvez inconscientemente estejam esperando que ela retribua o favor, sendo misericordiosa quando a hora de cada um chegar. Ou talv,ez entendam, ao encará-la, que ela não é terrível, apenas é, faz parte do ciclo da existência, representando inclusive todas as mudanças inevitáveis.
Samir,
Obrigado pelo "repost" no Facebok! Que sejam duas pessoas vendo, tá ótimo já, hehe!
Abraço!
Thiago,
Obrigado pela dica de leitura, será mais um que deverá aparecer na cabeceira logo, ainda mais com um tema tão empolgante.
Interessante você ter citado a conversa que ocorre entre Sonho e Destruição. Realmente, essa é uma das passagens mais, digamos assim, esclarecedoras da série Sandman, como se conseguíssemos visualizar a idéia de Neil Gaiman por trás essência de seus personagens.
Quanto a "...dar forma humana à natureza faz parte da natureza humana...", essa é uma frase que jamais esquecerei, rs!
Abraço!
Postar um comentário