5.3.10

Quando barreiras cedem


O Brasil, e talvez mais especificamente São Paulo, tem sido agraciado por uma porção de shows de rock e generalidades nos últimos meses. Várias bandas passaram por aqui, com destaque para os shows do AC/DC e do Metallica, que realmente foram muito acima da expectativa, principalmente, para quem achava que os caras estavam para pendurar as chuteiras. Toma essa! Esses vovôs e tios do rock, respectivamente, mandam muito bem ainda!

Mas duas apresentações, ainda por vir, chamam a minha atenção: ZZ Top e Johnny Winter, ambos em meados de maio de 2010. Gostaria de curtir tudo isso, entretanto, falta-me tempo (leia-se $$$), e como esses eventos não estão saindo lá muito baratos, terei que me contentar somente com um dos shows. Johnny Winter tá um bagaço, como pude notar pela apresentação dele em 2007 no festival Crossroads do Eric Clapton, mas mesmo assim, ele não deixa de ser uma lenda da guitarra, como o cara que consegue deixar qualquer música boa demais. Exemplo disso é a versão dele numa gravação da BBC de 1974 de "Jumpin' Jack Flash", originalmente dos Rolling Stones. Pelo jeito os anos 70 não fizeram muito bem para ele...

Johnny Winter e Derek Trucks Band executando "Highway 61".
O velhinho tá "só o coió", aos 63 anos em 2007.

Johnny Winter Band, executando uma versão de "Jumpin' Jack Flash".
Aos 30 anos, esbanjando vitalidade e elegância, em 1974.

Já Billy Gibbons é demais só por conta da barba dele. Eu gostaria de ter um bombril desses pendurado na cara, é muito sensacional! Fora que o cara é um guitarrista muy habilidoso, com uma voz perfeita para suas composições que, aliás, são clássicas. Mesmo quem não sabe quem é o ZZ Top já ouviu alguma de suas músicas, seja no rádio ou naquele filme porcaria da sessão da tarde. O uso do harmônico na guitarra popularizou com o emprego criativo desse recurso por conta desse senhor de barba branca, que não atende por Santa ou Noel, mas que presenteia os ouvidos de quem se presta a apreciar esse power trio. Ah, além da barba, ele também tem uma guitarra de pelúcia. Dúvida? Não duvide. Precisa de mais alguma coisa para provar que o cara é muito roots?

ZZ Top, tocando (vejam só!) no Crossroads Festival de 2004.
Eric Clapton tem ótimos amigos e contatos.


Mas a vontade de ir a um desses shows não reside somente na música. Tanto o Johnny Winter quanto o Billy Gibbons, e os outros caras do ZZ Top, Joseph Dusty Hill (baixo) e Frank Beard (batera), são gente finíssima. Não são poucos os relatos de vezes que esses senhores interagiram com os fãs, sendo extremamente gentis e cordiais, dando atenção e fazendo brincadeiras, tudo isso dentro e fora do palco. Nada mal para quem pode ser considerado um marco da música e que, segundo a "regra geral" do estrelato, deveria se tornar um escroto arrogante e desdenhoso daqueles que o admiram, não é? Todo esse quadro contribui mais ainda para que eu esteja a fim de ver esses senhores em ação. (Tudo bem, hoje em dia o J. Winter não cumprimenta mais os fãs... Mas isso é porque ele está quase completamente cego! Por isso que um roadie vem buscá-lo no final da apresentação do primeiro vídeo que coloquei acima.)

Se a postura de "rockstar o c#ralho, me dá um cerveja pra beber junto contigo!" desses senhores é louvável, o que dirá a de Bob "The Bear" Hite, vocalista do Canned Heat, uma das bandas mais importantes do cenário blues-rock americano da década de 70. Durante a sua apresentação no (fatídico!) Woodstock de 69, um fã subiu ao palco e se dirigiu ao Bob que, ao invés de se esquivar, abraçou o cara, falou para os seguranças que não tinha problema, emprestou um cigarro para o cara (tá bom, ele teve o cigarro surrupiado...), bateu um papo e ainda falou para ele sentar na beira do palco para apreciar o resto da gig. Fala sério, que sensacional!

Canned Heat em ação, durante o Woodstock de 69.
O fã sem noção entra aos 1 min e 18 s, para não sair mais.

Em outra ocasião, diz-se que um fã  ao encontrá-lo em um boteco exclamou "Bob Hite!?", ao que o próprio respondeu "The Bear!", sorrindo e estendendo-lhe a mão para cumprimentá-lo. E se você, incauto leitor, pensa que isso era somente pelo fato de que eles não eram tão famosos assim, não se engane. O Canned Heat, nessa época, era extremamente conhecido, reconhecido e respeitado, como uma Lady Gaga dos anos 70 em termos de fama, só que sem as roupas esquisitas, as músicas ruins e o péssimo dom de ser uma idiota. Tá, foi um péssimo comparativo, mas tá valendo...

Logicamente, casos em que o fanatismo extremo levou à ocorrência de tragédias não são raros, como o estúpido fim de John Lennon devido a nóia de David Chapman, e o assassinato de Dimebag Darrel, da banda Pantera, executado em cima do palco por Nathan Gale, que ainda assassinou mais três pessoas na mesma ocasião, antes se ser morto a tiros por um policial. Mas idiotas existem em todos os lugares, e como um cara que comete um crime desses já era um desajustado muito antes de ler O Apanhador no Campo de Centeios, creio que o assassinato de alguém famoso somente ocorreu no lugar de alguém desconhecido por uma questão de oportunidade. Não fosse o Chapman fã de Beatles, talvez ele tivesse matado a própria vizinha no lugar do popstar, mas isso não teria repercussão alguma, seria somente uma nota de página no jornal regional da área.

Não é de hoje que faço público meu saudosismo não vivenciado dos anos 70. Tenho isso não somente pela música, mas também pela ausência de uma verdadeira sensação de conexão que antes existia entre o musicista e o apreciador, quando ainda não havia uma barreira eregida entre aqueles que faziam a música e aqueles que a ouviam. Ver caras como o ZZ Top e o Johnny Winter se apresentando me serviria para experimentar essa sensação, o mínimo que fosse. Hoje em dia, tudo é uma grande máquina de gerar dinheiro, algo que, infelizmente, começou na década de 70.

Mas, pelo menos, naquela época a música ainda era boa. Hoje em dia, esses plastificados sonoros não servem nem para torturar seu pior inimigo. Lady Gaga, limparia minha bunda com o encarte do seu CD. Caso tivesse um.

Caraca, mas ainda não sei... ZZ Top ou Johnny Winter?! E aí?!

4 comentários:

Igor Santos disse...

Winters não ficou cego. Ele nunca teve olho.
E existe coisa mais legal que o único cara sem barba do ZZ Top se chamar Beard? Eu acho que não...

Joey Salgado disse...

Tem razão Igor, o Winter não tem olhos, somente dedos. Foi uma troca que eles fez com o Belzebu, à la Crossroads, rs.

E nada como o poder da ironia...

ligia disse...

ah fê, se eu fosse vc, dava um jeito... come umas semanhinhas no bandex e compra os 2 ingressos!

(tudo bem, isso é uma medida extrema, mas shows sempre valem a pena!)

beijo

Joey Salgado disse...

Li, devo confessar que ponderei fazer esse sacrifício seriamente. Pelo menos decidi que vou no ZZ Top, falta agora ver como fazer para o J. Winter... Mas aí também me aparecem Focus e Rick Wakeman vindo para cá e f#deu tudo de novo, rs!

Beijos!